9 de agosto de 2014

Dois singulares, um plural

Te vi. Você estava no meio da multidão. Entre tanta gente igual, entre tanta gente normal, lá você estava. Foi estranho. Senti uma pontada no peito e um frio na barriga. Era como ver um sonho se realizando bem diante dos meus olhos.Um sonho daqueles que a gente se esforça para não piscar e, de repente, perceber que estava apenas dormindo. Você sorriu, eu corei. Senti as bochechas se aquecerem e as mãos gelarem. Você se aproximou, eu o abracei. Você era tão real e ao mesmo tempo tão demasiadamente incomum para ser de verdade. Senti no seu abraço a forma e o calor exato para envolver o meu corpo e a segurança necessária para proteger o meu cético coração. A alegria bateu, eu resolvi abrir a porta.
Não, aquela não foi a primeira vez que te vi, mas foi a primeira vez que te enxerguei tão nitidamente. Naquele exato momento, te reconheci: Você era o cara que surgiu para me mostrar a incrível sensação de viver com a cabeça nas nuvens e os pés no chão. Não foi à primeira vista, não foi após o primeiro beijo. Foi quando eu já conhecia a diferença da sua voz nos dias normais, nas horas de sono e nas épocas de gripe. Também conhecia o seu cabelo bagunçado de domingo, todas as cores dos seus olhos, cada sarda do seu rosto e o desenho da sua barba cerrada. Já havia me identificado com o seu jeito desajeitado e a sua teimosia que insistia em ser maior que a minha. Foi depois de descobrir todas as suas manias loucas, o seu prato montanhoso no almoço e o seu relacionamento sério e poligâmico com o futebol, a cerveja e os livros. Aliás, também já havia percebido que você não era normal. Sim, pois, mesmo depois de me conhecer tão bem, resolveu ficar. Onde há sanidade nisso? Não leve a mal! Cá entre nós, eu sempre achei a loucura bem mais legal mesmo.
Nunca foi uma dessas paixões avassaladoras, destruidoras e repentinas, feitas para acabar, como muitas. É um desses amores calmos, quentes e construídos com o tempo, feitos para durar, como poucos. Não somos iguais, não somos opostos, penso que somos equivalentes. Nos descobrimos juntos a cada dia, mesmo entre nossas histórias independentes e completas. Eu aqui e você lá. Se estamos longe, permanecemos perto. Você jamais me causou insônia ou dor de cabeça. Pelo contrário, ao final do dia, quando eu sinto as pálpebras se fecharem e os cílios se encontrarem é o seu rosto que eu imagino, ensaio um sorriso e o sono mais tranquilo me invade. Aí eu acordo no dia seguinte e percebo o real motivo: Você, diferente dos outros, não veio tentando preencher meu copo, que sempre foi cheio. Você veio para trazer o seu copo também para juntos brindarmos nossas vidas que mesmo tão singulares adoram ser um plural.

Lá do Casal Sem Vergonha - Jéssica Delalana



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