18 de junho de 2014

Da próxima vez que disse "Não quero me envolver" pense nisso...

A gente vê e ouve em toda parte: viva a vida que merece ser vivida. Essa vida, dos anúncios, das bebidas, dos perfumes, dos motéis e dos contos de fadas. Não precisa nem procurar para encontrar alguém ou alguma coisa gritando sobre como nós deveríamos ser e o que nós deveríamos sentir. Tem gente por todo lado querendo nos fazer engolir os parâmetros que determinam nosso sucesso e a qualidade do sexo que fazemos e nas redes sociais ninguém nunca foi tão feliz, tão amado e tão bem-comido antes.
O problema de toda essa propaganda sobre a vida que merece ser vivida é que a gente se sente numa responsabilidade gigantesca de ser feliz a todo preço e essa responsabilidade está tirando a liberdade do erro, do fracasso, da tristeza, da perda e, pasme: do amor. Quando é proibido sofrer, o jeito é não amar. Até Drummond já dizia que era ´proibido passear sentimentos ternos ou desesperados nesse museu do pardo indiferente´ e ele nem tinha Facebook!
Melhor mesmo é ter uma lista de “amigas coloridas” para um sexo gostoso e passar o dia dos namorados sozinho pra não ter que mudar o status do Facebook pra “solteiro” em uma terça-feira chuvosa na qual você sentiu uma dor no coração tão grande que achou que ia ter um infarto. Melhor mesmo é não correr o risco de ouvir “eu acho melhor sermos somente amigos” na sua cabeça toda vez que você precisa passar na frente da casa dele. Melhor mesmo é não amar e não ficar vulnerável; é não permitir que uma pessoa qualquer destrua todas as suas defesas e bagunce tudo que você construiu ao arrancar um pedaço de você em um beijo, um sorriso ou em um momento de gozo que você queria que durasse pra sempre. Melhor mesmo é não misturar as coisas e não se envolver. Curtir a vida e não “arranjar sarna pra se coçar”. Não é?
Não. Desculpe, mas eu prefiro não ser feliz o tempo todo pra ser feliz de verdade. Sinto muito, mas ‘não confundir sentimentos’ é algo que não faz o menor sentido pra mim. Eu nasci pra confundir todos eles, pra mexer neles, bater no liquidificador, trucidar alguns, amassar calmamente outros, acariciar, tomar com vodka, tequila, engolir a seco; ‘batido, não mexido’, brindado, transformado, usado, medido, somado, triplicado, reduzido a nada; confundir tudo, todo ele, embaraçar, atrapalhar, atarracar todo esse sentimento transbordante, consoante, amante. Sim. eu quero mesmo – custe o que custar – é confundir tudo e transbordar todo o meu sentir sem nenhuma direção que não aquela que enlouquece todos os sentidos mais verdadeiros de dois seres em constante epifania. Sim, eu acho que não arranjar sarna pra me coçar cobra um preço muito maior do que eu estou disposta a pagar.
E da próxima vez que você for dizer “eu não me envolvo” para alguém, por favor, pense melhor. Pessoas são reais, o que elas sentem é real, o que elas fazem é real, o que elas vivem é real e o que torna a VIDA real é exatamente o fato de que as pessoas se envolvem em cada gesto e em cada olhar. Quando você fala algo assim pra alguém ignora todas as perguntas que vão ficar com o outro se ele for minimamente mais corajoso que você. Sim, ele vai se perguntar “e se” você não tivesse tido medo da sensação de perder o seu controle; e vai querer saber “e se” você tivesse aceitado que ele era sua paz e seu tormento sem tanta neura da infelicidade que isso trazia às vezes. Acredite, ela vai se perguntar o que aconteceria se você não tivesse se preocupado tanto com a família ou com o salário dela e vai se questionar como poderia ter sido se você não tivesse tido vergonha do sentimento que demonstrou pra ela naquela lágrima que caiu durante a briga em que nenhum de vocês tinha razão. Essas covardias vão deixando muitas perguntas e tristezas sufocadas por um mundo onde ninguém pode ser triste nunca. No fim a pessoa que podia ter sido o grande amor da sua vida, vai se perguntar “e se você tivesse dito sim pro que a gente tinha?” e vai perceber que “e se” é perigoso demais no seu mundo.
Nele, o poeta estava certo e é p r o i b i d o p a s s e a r s e n t i m e n t o s.


Mais uma do Casal Sem Vergonha (como amu essa página) - Kéren Carvalho


E se?
Pois é...
Não viva do e se... apenas viva, se agarre.



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